Radiografia de tórax AP no leito: posicionamento, técnica e diferenças da PA
Quando o paciente não consegue ficar em pé, o tórax é radiografado em AP, deitado ou semi-ereto, quase sempre com aparelho portátil. Veja o passo a passo do posicionamento, os fatores técnicos e como interpretar as diferenças em relação à PA.
Este artigo faz parte do Radiografia de tórax de rotina: PA, perfil e AP portátil.
Neste artigo
- O que é a radiografia de tórax AP?
- Posicionamento: supino ou semi-ereto
- Raio central, angulação e colimação
- Fatores técnicos: distância, kVp e grade
- Qual a diferença entre AP e PA na imagem?
- Quais são os critérios de avaliação da imagem?
- Quais são os erros mais comuns?
- Proteção radiológica à beira do leito
- Quando é usada (indicações e limitações)
- Perguntas frequentes
- Referências
Ficha técnica: Radiografia de tórax AP no leito
- Paciente
- Em supino ou, se o quadro permitir, semi-ereto (cabeceira elevada). Sem rotação, com os ombros rodados para frente para afastar as escápulas dos pulmões.
- Receptor
- 35×43 cm, na vertical ou na horizontal, com a borda superior cerca de 5 cm acima dos ombros.
- Raio central
- De 8 a 10 cm abaixo da fúrcula esternal, na altura de T7, angulado de 3° a 5° no sentido caudal para ficar perpendicular ao esterno.
- Distância foco-filme
- De 120 a 180 cm. Use a maior que o equipamento e o espaço permitirem e registre a distância usada.

ROLLINS, J. H.; LONG, B. W.; CURTIS, T. Merrill’s Atlas of Radiographic Positioning and Procedures. 15. ed. St. Louis: Elsevier, 2023. v. 1, fig. 3.56.

ROLLINS, J. H.; LONG, B. W.; CURTIS, T. Merrill’s Atlas of Radiographic Positioning and Procedures. 15. ed. St. Louis: Elsevier, 2023. v. 1, fig. 3.57.
Observação: kVp de 90 a 125. Sem rotação, com o plano mediossagital no centro do receptor. Registre no exame a posição (supino ou semi-ereto) e o horário.
O que é a radiografia de tórax AP?
O nome. AP significa anteroposterior: o feixe de raios X entra pela frente do tórax e sai pelas costas, onde fica o receptor. O nome descreve o trajeto do feixe, não a posição do corpo. O paciente pode estar deitado, sentado ou em pé, e a projeção continua sendo AP.2
Quando é feita. O exame padrão de tórax é a radiografia PA, com o paciente em pé. A AP entra quando isso não é possível: pacientes graves, na UTI, no pós-operatório ou com trauma. Nesses casos o exame é feito no próprio leito, com aparelho portátil, com o paciente o mais ereto que conseguir tolerar, ou deitado se estiver crítico.3
Por que a PA é preferida. Com o paciente em pé, a gravidade puxa o diafragma para baixo, os vasos pulmonares não ficam ingurgitados e os níveis de ar e líquido aparecem. Deitado, as vísceras abdominais empurram o diafragma para cima e comprimem o tórax, o que impede a expansão completa dos pulmões.2 Por isso a AP não é uma “PA ao contrário”: a imagem muda, e quem interpreta precisa saber como ela foi feita.
Posicionamento: supino ou semi-ereto
Posição do paciente. O paciente fica deitado de costas. Sempre que o quadro permitir, eleve a cabeceira até a posição sentada ou semi-ereta: quanto mais ereto, mais a imagem se aproxima da PA.13

AP de tórax com o paciente parcialmente sentado. A linha de luz marca a altura do raio central. Fonte: HAYES, S. G. Mobile radiography. In: ROLLINS, J. H.; LONG, B. W.; CURTIS, T. Merrill’s Atlas of Radiographic Positioning and Procedures. 15. ed. St. Louis: Elsevier, 2023. v. 3, fig. 20.10.
Toque ou clique na imagem para ampliar.Receptor. Coloque o receptor dentro de uma capa plástica e centralize-o sob o paciente, com a borda superior cerca de 5 cm acima dos ombros. Deitado, os ombros tendem a subir em relação aos pulmões, então confira a margem antes de expor.13 A capa protege a pele do paciente e facilita a limpeza; depois do exame, o receptor é desinfetado.3
Sem rotação. Alinhe o plano mediossagital ao centro do receptor e confira se o tronco não está girado nem inclinado para um lado.13
Ombros e braços. Se o quadro permitir, rode os ombros para frente, com os braços em rotação interna ou as mãos nos quadris. Isso desloca as escápulas para fora dos campos pulmonares.12
Trauma. Com suspeita de lesão na coluna ou trauma grave, não mobilize o paciente para posicioná-lo. Faça o exame na posição em que ele está.1
Identificação. Além do marcador de lado (D ou E), registre no exame a posição do paciente (supino, semi-ereto) e o horário. O horário é especialmente importante nas radiografias de tórax.3
Raio central, angulação e colimação
Ponto de entrada. O raio central entra de 8 a 10 cm abaixo da fúrcula esternal (incisura jugular), na altura de T7.1 O Merrill indica cerca de 7,5 cm, então ajuste ao porte do paciente.2
Angulação. Com o paciente deitado, o esterno fica levemente inclinado. Por isso o raio central é angulado de 3° a 5° no sentido caudal, para ficar perpendicular ao esterno. Sem essa angulação, as clavículas encobrem os ápices pulmonares.1 Se o paciente estiver semi-ereto, o receptor também fica inclinado, e o tubo deve ser angulado para manter o feixe perpendicular a ele.1
Conferência pela sombra. Antes de expor, olhe a sombra dos ombros projetada pela luz do colimador sobre o receptor. Se ela cair muito acima da borda superior, a angulação está errada e precisa ser corrigida.3
Colimação. Colime nos quatro lados até os campos pulmonares, sem passar de 35×43 cm. A colimação reduz a dose e a radiação espalhada, o que melhora a imagem.13
Respiração. Exponha ao final da segunda inspiração profunda.1 Em paciente com ventilação mecânica, observe o movimento do tórax e faça a exposição na fase de inspiração.3
Fatores técnicos: distância, kVp e grade
Distância foco-filme. A distância de 180 cm é a recomendada para reduzir a ampliação do coração e melhorar a nitidez, mas o equipamento e o espaço do quarto muitas vezes exigem menos.2 No leito, o Bontrager indica de 120 a 180 cm, sempre a maior possível.1 Muitos serviços padronizam cerca de 100 cm nos exames portáteis. Distâncias maiores pedem mais mAs e, com os limites do aparelho portátil, um tempo de exposição mais longo, o que aumenta o risco de borrão por movimento.3 Seja qual for a escolha, use sempre a mesma distância e registre-a, para que os exames de dias diferentes possam ser comparados.3
kVp. A faixa indicada para a AP no leito vai de 90 a 125 kVp.1 Siga o princípio ALARA: o kVp mais alto e o mAs mais baixo que ainda deem boa imagem. Depois de cada exposição, confira o indicador de exposição do sistema digital.1
Grade. A grade é indicada quando o tórax tem mais de 10 cm de espessura; alguns sistemas digitais usam “grade virtual”, um software que dispensa a grade física.13 As grades dos aparelhos portáteis costumam ser focadas, com razão de 6:1 ou 8:1 e faixa focal de 91 a 112 cm. Fora dessa faixa, ou inclinada, a grade corta a imagem nas laterais. No colchão, o peso do paciente pode inclinar o receptor, então vale apoiá-lo em uma superfície firme.3
Qual a diferença entre AP e PA na imagem?
Na AP, o coração fica longe do receptor e, no leito, o tubo costuma ficar mais perto do paciente. As duas coisas aumentam a imagem do coração. O Merrill resume assim o que muda:
“Por estarem mais longe do receptor, o coração e os grandes vasos aparecem ampliados e ingurgitados, e os campos pulmonares parecem mais curtos, porque a compressão abdominal desloca o diafragma para um nível mais alto.”
Merrill’s Atlas, v. 1, cap. 3 (tradução livre) 2

Para comparar com a AP da ficha técnica: numa PA em pé, as clavículas ficam oblíquas, o diafragma mais baixo e o coração menor. Fonte: ROLLINS, J. H.; LONG, B. W.; CURTIS, T. Merrill’s Atlas of Radiographic Positioning and Procedures. 15. ed. St. Louis: Elsevier, 2023. v. 1, fig. 3.58.
Toque ou clique na imagem para ampliar.| Aspecto | PA em pé | AP no leito |
|---|---|---|
| Posição do paciente | Em pé, de frente para o receptor | Deitado ou semi-ereto, de costas para o receptor |
| Distância foco-filme | 180 cm | 120–180 cm, muitas vezes menos |
| Tamanho do coração | Próximo do real | Ampliado |
| Diafragma | Mais baixo, pulmões mais expandidos | Mais alto, pulmões mais curtos |
| Clavículas e costelas | Clavículas oblíquas | Clavículas mais altas e horizontais, costelas mais horizontais |
| Níveis de ar e líquido | Visíveis | Podem não aparecer |
Coração ampliado. O coração fica na parte da frente do tórax. Na AP, isso o deixa longe do receptor, e a distância menor entre tubo e paciente aumenta ainda mais a ampliação.24 Por isso, um coração que parece aumentado numa AP nem sempre está aumentado de verdade.
Pulmões mais curtos. Deitado, o diafragma sobe, e o paciente grave raramente consegue inspirar fundo. Em geral aparecem de 8 a 9 arcos costais posteriores acima do diafragma, contra os 10 esperados na PA.24 O efeito é maior em pacientes de tórax largo e abdome volumoso.2
Níveis de ar e líquido. Os níveis de ar e líquido só se formam com o paciente em pé. Deitado, eles não aparecem, e um derrame pode passar despercebido. Quando há essa dúvida, a incidência em decúbito lateral com feixe horizontal ajuda a confirmar.23
Quais são os critérios de avaliação da imagem?
Uma boa AP de tórax deve mostrar:23
- Pulmões inteiros, dos ápices aos seios costofrênicos.
- Sem rotação: as extremidades internas das clavículas à mesma distância da coluna, a traqueia na linha média e a mesma distância da coluna até a borda das costelas dos dois lados.
- Clavículas mais horizontais do que na PA, com cerca de 2,5 cm dos ápices pulmonares visíveis acima delas.
- Trama vascular visível do hilo até a periferia dos pulmões.
- Penetração adequada: costelas e espaços entre as vértebras torácicas levemente visíveis através da sombra do coração.
- Sem movimento: contornos do diafragma e dos pulmões nítidos.
- Marcadores: lado (D ou E) e posição do paciente, colocados fora da área de interesse.
Quais são os erros mais comuns?
Imagem “lordótica”. Um raio central angulado para a cabeça, em vez de para os pés, produz costelas com aspecto quadrado, clavículas projetadas no alto e o contorno do coração distorcido. A correção é deixar o raio perpendicular ao esterno e conferir a sombra dos ombros antes de expor.3

(A) Angulação para a cabeça: costelas com aspecto quadrado, clavículas altas e coração distorcido. (B) A mesma paciente repetida com o raio perpendicular ao esterno e os fios do monitor reposicionados. (C) e (D) Exames no leito com cateter, marca-passo e outros dispositivos. Fonte: HAYES, S. G. Mobile radiography. In: ROLLINS, J. H.; LONG, B. W.; CURTIS, T. Merrill’s Atlas of Radiographic Positioning and Procedures. 15. ed. St. Louis: Elsevier, 2023. v. 3, fig. 20.11.
Toque ou clique na imagem para ampliar.Corte pela grade. Grade inclinada no colchão ou usada fora da faixa focal escurece as bordas laterais da imagem. Apoie o receptor numa superfície firme e respeite a distância indicada na grade.3
Artefatos. Pacientes internados costumam ter fios de monitor, tubos e cateteres sobre o tórax. Afaste o que puder ser movido com segurança e reposicione os fios do monitor fora dos campos pulmonares.3
Rotação. No leito, o paciente tende a pender para um lado. Confira o alinhamento do tronco antes de cada exposição: uma rotação pequena já distorce bastante a sombra do coração.23
Proteção radiológica à beira do leito
“A radiografia móvel produz algumas das maiores exposições ocupacionais à radiação para os técnicos.”
Merrill’s Atlas, v. 3, cap. 20 (tradução livre) 3
Técnico. Use avental de chumbo e fique o mais longe possível do paciente e do feixe, no limite do cabo de disparo.3
Outras pessoas. Peça que acompanhantes e visitas saiam do quarto durante o exame e, se precisar de ajuda para posicionar o paciente, chame a equipe de enfermagem.3
Paciente. Colime com cuidado e siga o protocolo do serviço e as normas locais para o uso de protetores.1
Quando é usada (indicações e limitações)
Pacientes que não podem ir à sala de raio-X. A AP é feita em quem não pode ficar em pé nem ser levado até a radiologia: pacientes graves, na UTI, no pós-operatório imediato ou em atendimento de urgência.35
Uma incidência só. A PA costuma vir acompanhada da incidência em perfil. O exame no leito, em geral, tem só a AP, o que limita a avaliação de estruturas que aparecem melhor no perfil.5
Qualidade menor. Distância, angulação e imobilização são mais difíceis de padronizar à beira do leito, e a imagem tende a ter qualidade inferior à de uma PA feita na sala. Sempre que o quadro permitir, prefere-se levar o paciente para a rotina de tórax em pé.5
Perguntas frequentes
O que significa AP na radiografia de tórax?
AP quer dizer anteroposterior, o caminho do feixe de raios X, que entra pela frente do tórax e sai pelas costas, onde fica o receptor. O nome descreve o trajeto do feixe, não a posição do paciente, que pode estar deitado, sentado ou em pé.2
Qual a diferença entre a radiografia de tórax AP e a PA?
Na PA o paciente fica em pé, de frente para o receptor, e o feixe entra pelas costas. Na AP o receptor fica atrás do paciente, geralmente deitado ou semi-ereto no leito. Por isso a AP mostra o coração ampliado, o diafragma mais alto e as clavículas mais horizontais.2
Por que o coração parece maior na radiografia AP?
Na AP o coração fica mais longe do receptor e, no leito, o tubo costuma ficar mais perto do paciente. As duas coisas aumentam a ampliação da imagem do coração e dos grandes vasos.24
Qual a angulação do raio central na AP de tórax?
De 3° a 5° no sentido caudal, para que o raio fique perpendicular ao esterno. Essa angulação evita que as clavículas encubram os ápices pulmonares.1
Onde centralizar o raio central na AP de tórax?
De 8 a 10 cm abaixo da fúrcula esternal (incisura jugular), o que corresponde à altura de T7.1
Qual a distância foco-filme da radiografia de tórax AP?
De 120 a 180 cm no exame à beira do leito, usando a maior distância possível. A distância de 180 cm é a recomendada para reduzir a ampliação do coração, mas o equipamento e o espaço do quarto nem sempre permitem.12
Referências
- Lampignano JP, Kendrick LE. Bontrager’s Handbook of Radiographic Positioning and Techniques. 11ª ed. St. Louis: Elsevier; 2025. Cap. 1, Tórax, p. 2–3; Cap. 10, Radiografia móvel, p. 325.
- Rollins JH, Long BW, Curtis T. Merrill’s Atlas of Radiographic Positioning and Procedures. 15ª ed. St. Louis: Elsevier; 2023. v. 1, Cap. 2, Terminologia, e Cap. 3, Tórax (Thoracic Viscera), projeção AP.
- Hayes SG Jr. Mobile radiography. In: Rollins JH, Long BW, Curtis T. Merrill’s Atlas of Radiographic Positioning and Procedures. 15ª ed. St. Louis: Elsevier; 2023. v. 3, Cap. 20, p. 4–11.
- Lampignano JP, Kendrick LE. Bontrager’s Textbook of Radiographic Positioning and Related Anatomy. 10ª ed. St. Louis: Elsevier; 2021. Cap. 2, Tórax, p. 94.
- Jensen L, Meyer C. Reducing errors in portable chest radiography. Applied Radiology. 2015;44(4).
Aviso: conteúdo educativo, baseado na literatura citada. Protocolos podem variar entre serviços; siga sempre a orientação do médico ou radiologista responsável.